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Intoxicação por cannabis [32][33]

O consumo de cannabis tem vindo a ser associado a distúrbios psicóticos, tais como esquizofrenia. 

Os canabinoides sintéticos são bastante associados à psicose e o seu uso corresponde a uma preocupação crescente devido aos efeitos secundários serem mais perigosos para a saúde e mais prevalentes do que na cannabis "natural''. Em casos de consumo de cannabis natural existe baixa afinidade do agonista parcial de THC para o recetor CB1 levando a muitos dos efeitos secundários provenientes do uso. Pelo contrário, os canabinoides sintéticos são agonistas totais com alta afinidade para o recetor CB1. Deste modo, quaisquer efeitos nocivos da cannabis natural são vistos com maior gravidade e mais frequentemente do que da cannabis sintética.

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O termo psicose em contextos clínicos refere-se a uma infinidade de anormalidades. Os sintomas psicóticos podem ter as seguintes classificações: agudos ou crónicos e leves ou graves.

As manifestações de psicose são normalmente divididas em sintomas “positivos” e “negativos”. Os sintomas positivos incluem delírios, alucinações, pensamento, fala e/ou comportamento desorganizados e comportamento motor anormal. Os sintomas negativos podem passar por expressão emocional diminuída, alogia e anedonia. 

Enquanto a psicose é apenas um sintoma, a esquizofrenia é uma doença crónica caracterizada pela presença de sintomas psicóticos graves ao longo da vida. Como a esquizofrenia confere morbidade e mortalidade extremamente altas, é necessária uma maior atenção à possibilidade do consumo da cannabis poder aumentar o risco para esta doença. 

Sabias que....

Alguns estudos indicaram que o CBD pode ter propriedades antipsicóticas e que o uso de cannabis com altos níveis de THC pode estar associado a um risco aumentado de psicose, especialmente quando os seus níveis de CBD são baixos. Alguns estudos epidemiológicos recentes mostraram um aumento da incidência de esquizofrenia em países como Inglaterra e Holanda, onde a cannabis altamente concentrada em THC é usada regularmente versus na Itália, onde são usadas variedades de cannabis mais tradicionais com concentrações mais baixas de THC. [33]

Intoxicação

Este diagnóstico é feito quando há um uso recente de cannabis com mudanças comportamentais ou psicológicas significativas, que se desenvolveram durante ou logo após o uso da droga, bem como sintomas físicos que indiquem intoxicação, como olhos anormalmente vermelhos ou boca seca.

A intoxicação por cannabis pode ocorrer em minutos para uso inalatório e horas em casos de ingestão. Os sintomas dependem de vários fatores, entre eles a dose e a tolerância, mas geralmente duram de 3 a 4 horas, podendo persistir por até 24 horas. Isto é o standardizado para situações em que há um transtorno mental causador de sintomas neuropsiquiátricos problemáticos.

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Os sintomas psicóticos não são essenciais para um diagnóstico de intoxicação por cannabis. Se os sintomas forem graves ou persistentes o suficiente para justificar a atenção clínica por si só, isso levar-nos-ia a um diagnóstico de Transtorno Psicótico Induzido por Cannabis.

Podemos afirmar que a maioria dos utilizadores de cannabis, em algum momento, já teve os sintomas correspondentes ao diagnóstico de intoxicação. 

Um estudo mostrou que há uma relação dose-resposta notória e os sintomas psicóticos tem o seu pico de ocorrência com a administração intravenosa de 5 mg de THC. 

Transtorno Psicótico Induzido por Cannabis

Um diagnóstico de Transtorno Psicótico Induzido por Cannabis é dado quando estão presentes alucinações e/ou delírios; estes podem ser desenvolvidos durante ou logo após a intoxicação por cannabis.

A cannabis deve ser considerada capaz de produzir o transtorno observado e que o mesmo não deve ser melhor explicado por outro transtorno psicótico independente (como esquizofrenia pré-existente) .

Se os sintomas durarem mais de um mês, um diagnóstico diferente de Transtorno Psicótico Induzido por Cannabis deve ser considerado.

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Os distúrbios psicóticos induzidos por substâncias de abuso geralmente ocorrem no contexto de intoxicação recente ou abstinência (por exemplo, com álcool), mas no caso da cannabis, apenas os sintomas psicóticos ocorridos no contexto de intoxicação recente levam a um diagnóstico de Transtorno Psicótico Induzido por Cannabis.

Até há data não existem dados suficientes sobre casos de TPIC, sendo que os existentes são limitados a relatos de casos de décadas atrás. No geral, esses relatos descrevem o uso agudo de cannabis, sintomas psicóticos graves que levaram o indivíduo a recorrer ao atendimento médico. Nestes casos, há uma necessidade de recorrer à hospitalização prolongada e medicação antipsicótica.

Transtorno Psicótico Induzido por Cannabis vs. Intoxicação
  • No TPIC as alucinações e/ou delírios são o foco clínico e são graves o suficiente para justificar tratamento, em detrimento dos sintomas psicóticos que podem ser vistos na intoxicação por Cannabis, que são mais leves.

  • Além da maior intensidade/gravidade dos sintomas, o TPIC também pode ter uma duração muito maior do que a Intoxicação por Cannabis. A intoxicação por cannabis será necessariamente resolvida em 24 horas, enquanto o TPIC pode durar dias e até semanas após a exposição à cannabis. 
     

Referências :

[32] Lafaye, G., Karila, L., Blecha, L., & Benyamina, A. (2017). Cannabis, cannabinoids, and health. Dialogues in clinical neuroscience, 19(3), 309–316. https://doi.org/10.31887/DCNS.2017.19.3/glafaye

[33] Pearson NT, Berry JH. Cannabis and Psychosis Through the Lens of DSM-5. Int J Environ Res Public Health. 2019 Oct 28;16(21):4149. doi: 10.3390/ijerph16214149. PMID: 31661851; PMCID: PMC6861931.

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© 2022 by Flávia Matos, Inês Castro e Sofia Rodrigues 

Para esclarecimento de dúvidas, contacta-nos: cannabistoxicologia.8@gmail.com

Trabalho realizado no âmbito da disciplina de Toxicologia Mecanística do Curso de Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP), no ano letivo 2021/2022. Este trabalho tem a responsabilidade pedagógica e científica do Prof. Doutor Fernando Remião (remiao@ff.up.pt) do Laboratório de Toxicologia da FFUP

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