Grupos de Risco
A cannabis é a substância psicoativa mais utilizada em todo o mundo. Apesar de ser por muitos considerada uma “droga leve”, vários estudos demonstram o seu efeito nocivo e aditivo nos seus utilizadores. [10] [11]
Apesar do seu uso generalizado continuam a existir grupos especialmente sujeitos aos efeitos danosos desta droga, os chamados grupos de risco.

Grávidas e Lactentes
O THC é uma molécula pequena e com características lipofílicas, o que facilita a sua passagem pela barreira placentária, a entrada na circulação sanguínea fetal e até possível acumulação decorrente do uso crónico. Estudos demonstram que o THC e o CBD são detetáveis 1 a 4 horas após o uso e podem permanecer até 6 dias no leite materno. Em utilizadores crónicos o tempo de semivida é de 4,1 dias o que pode expandir o grau de exposição do bebé. [13]
Grávidas [12][13]
Há fortes evidências de que o THC tem impactos consideráveis na sinalização e desenvolvimento e, como tal, é plausível supor que as exposições ao THC durante a gravidez possam levar a alterações a longo prazo no desenvolvimento neuronal. Sendo esta molécula altamente lipofílica atravessa facilmente a barreira placentária, porém a exposição fetal pode estar limitada, em certo grau, pelo transporte ativo de efluxo na placenta.
A sua “banalização” poderá estar na origem da sua utilização no controlo dos enjoos matinais por parte das grávidas.
De acordo com a informação científica disponível, a utilização de cannabis durante o período de gestação está associada a:
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parto prematuro
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baixo peso ao nascimento
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tamanho do filho pequeno para a idade gestacional
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aumento da taxa de admissão na unidade de terapia intensiva neonatal
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desenvolvimento anormal do cérebro
Apesar das consequências do uso da cannabis durante a gravidez mostrarem os efeitos supracitados, a utilização desta droga de abuso por parte de mulheres não grávidas em idade fértil também pode conduzir a consequências futuras, tendo sido relacionada a consequências adversas no crescimento cerebral fetal e no desenvolvimento adolescente, disfunção da função executiva com dificuldades de atenção, pior desempenho académico e problemas comportamentais.

Lactentes [13]
Mesmo após o nascimento, os recém-nascidos podem continuar expostos a compostos provenientes da cannabis através do leite materno. Um estudo recente mostrou que o bebé recebe, aproximadamente, 0,8% da dose consumida pela mãe através da amamentação. Porém, este valor pode ser superior dependendo da periodicidade da utilização da droga, já que a concentração de THC no leite materno pode ser até 8 vezes superior à sua concentração plasmática (plasma materno). Apesar da concentração de THC no leite ser variável, estima-se que 2,5% da dose consumida pela mãe possa atingir o leite em cerca de 1 a 4 horas e os canabinoides* detetados nos 6 dias posteriores à exposição.
*Inclui THC, o seu metabolito 11-OH-THC e CBD.
A exposição a canabinoides através do leite materno está associada a:
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Atraso no desenvolvimento motor
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Diminuição da altura
Adolescentes [14][15]

Estudos demonstraram a ativação de áreas cerebrais específicas em consumidores adolescentes de cannabis, nomeadamente nas áreas relacionadas com redes neuronais associadas à identificação de padrões e saliências. Esta informação torna-se ainda mais relevante tendo em consideração que essas mesmas áreas cerebrais estão implicadas em transtornos psicóticos como a esquizofrenia e a dependência.
Estes outcomes têm um pior prognóstico consoante mais cedo se iniciar o uso de cannabis:
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desempenho neurocognitivo inferior (particularmente no ramo da memória e atenção)
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alterações cerebrais macroestruturais
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alterações na integridade da substância branca
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anormalidades no funcionamento neuronal
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problemas comportamentais (agressividade)
Imunocomprometidos [16]
Este grupo de risco está mais associado ao uso medicinal de cannabis como terapêutica adjunta, visando melhoria dos sintomas associados à dor, náuseas, anorexia e alterações de humor associadas a outras terapias. O risco neste grupo passa pela utilização de cannabis que, não sendo controlada, funciona como meio de transporte a outros microorganismos que, em contacto com o indivíduo imunocomprometido, podem gerar infeções graves.
Desta forma, torna-se crucial a esterilização da planta antes do seu uso, porém verifica-se uma redução do teor em THC com este processo.
Referências:
[10] Lafaye, G., Karila, L., Blecha, L., & Benyamina, A. (2017). Cannabis, cannabinoids, and health. Dialogues in clinical neuroscience, 19(3), 309–316. https://doi.org/10.31887/DCNS.2017.19.3/glafaye
[11] Forray A. (2016). Substance use during pregnancy. F1000Research, 5, F1000 Faculty Rev-887. https://doi.org/10.12688/f1000research.7645.1
[12] Grant, K. S., Petroff, R., Isoherranen, N., Stella, N., & Burbacher, T. M. (2018). Cannabis use during pregnancy: Pharmacokinetics and effects on child development. Pharmacology & therapeutics, 182, 133–151. https://doi.org/10.1016/j.pharmthera.2017.08.014
[13] Davis, E., Lee, T., Weber, J. T., & Bugden, S. (2020). Cannabis use in pregnancy and breastfeeding: The pharmacist's role. Canadian pharmacists journal : CPJ = Revue des pharmaciens du Canada : RPC, 153(2), 95–100. https://doi.org/10.1177/1715163519893395
[14] Hurd, Y. L., Manzoni, O. J., Pletnikov, M. V., Lee, F. S., Bhattacharyya, S., & Melis, M. (2019). Cannabis and the Developing Brain: Insights into Its Long-Lasting Effects. The Journal of neuroscience : the official journal of the Society for Neuroscience, 39(42), 8250–8258. https://doi.org/10.1523/JNEUROSCI.1165-19.2019
[15] Jacobus, J., & Tapert, S. F. (2014). Effects of cannabis on the adolescent brain. Current pharmaceutical design, 20(13), 2186–2193. https://doi.org/10.2174/13816128113199990426
[16] Ruchlemer, R., Amit-Kohn, M., Raveh, D., & Hanuš, L. (2015). Inhaled medicinal cannabis and the immunocompromised patient. Supportive care in cancer : official journal of the Multinational Association of Supportive Care in Cancer, 23(3), 819–822. https://doi.org/10.1007/s00520-014-2429-3
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